sexta-feira

Fátima Marinho

Publicada por Ana Isabel Pedroso


Hoje pelas 17:30 na Fnac do Colombo em Lisboa estará presente a escritora Fátima Marinho para o lançamento do livro " À procura de um lugar".
Sinopse:
O nascimento do Vicente transformou tudo e todos à sua volta. Chovia no dia 25 de Abril de 2000. Portugal parou para lembrar o valor da liberdade e, logo após o seu nascimento, também a família de Vicente parou debruçada sobre o abismo. Fora concebido numa viagem aos Alpes suíços e a sua vinda preparada com detalhe. Mas Vicente trazia consigo uma revelação esmagadora. Tinha trissomia 21. O dia do seu nascimento foi o acto inaugural de mil desafios, mas também o início de vidas maiores que se escondiam no conforto e na previsibilidade dos dias. Às vezes a felicidade veste-se de breu só para que o sol brilhe mais quando rompe a alva.
Não conhecia a escritora até receber o convite para ir ao lançamento do livro.
Depois fui pesquisar na internet e dei com o site da escritora - http://www.fatimamarinho.com/
Andei por lá, li sobre os livros, a poesia, os comentários e posso dizer que gostei! É sempre bom conhecer uma nova escritora portuguesa!
Li um texto da Fátima Marinho sobre as Mães, "As mães não morrem"... LINDO!
Podem ler aqui:
As mães não morrem A minha mãe tinha mãos elegantes de fada. Fazia rendas à velocidade da luz. A minha mãe era linda, linda! A minha mãe não gostava da vida, nem da maioria das pessoas. Era simpática, espirituosa, mas obsessiva. Com o tempo tornou a sua vida inconciliável com a vida dos outros. Não estava bem em lado algum. Queria tudo e não queria nada. Amava e odiava à mesma velocidade com que sempre tricotou os bicos de renda, nos panos de linho. A minha mãe perdeu-se na imensidade da sua alma.

Tinha uma alma gigante, dessas que cruzam o universo de lés a lés. O mundo não a soube compreender.

- Sabes, Princesa, às vezes o mundo não compreende as almas maiores. Não fiques triste!

A minha mãe morreu ao sétimo dia do primeiro mês do ano de 2001. Mas há muito tinha abandonado a vida. Creio que nunca cá esteve inteira. Quando dedicadamente lhe fazia máscaras de beleza e retirava o buço, escarnecia daquelas minhas preocupações estéticas, mas depois lá olhava, reconhecia o espelho e encolhia os ombros.

Nos dias de sol, levava-a para o terraço e fazia evocações ao astro-rei. Passava, repetidas vezes, as minhas mãos nos seus cabelos grisalhos, pedindo aos deuses, onde quer que estivessem, que iluminassem a escura e insustentável mágoa da minha mãe. A minha mãe transformou a sua vida num grande lamento. Tão grande que era impossível calá-lo. Tão grande que não foi capaz de nos poupar à humilhação pública de se arrastar pelos hospitais no mais mísero estado, enquanto no guarda-roupa deixava imaculados os casacos de bom corte e o vestido italiano que lhe havia comprado.

Depois de minha mãe morrer passei a usar alguma da sua roupa. Dei outra e guardei o vestido italiano. Pensei usá-lo num baptizado. Mas não o fiz. A minha mãe nunca o usou. Vestiu-o quando lho ofereci. Decidi, por isso, guardar o que resta do seu cheiro, das suas dimensões humanas, no vestido que guardo na primeira gaveta, da minha antiquíssima cómoda, no quarto das visitas que também foi dela. Quando tenho saudades da sua voz e o telefone não toca, corro para o quarto do lado e abraço o vestido da minha mãe. Nesse abraço não há nem um pouco da tristeza que a consumiu, nem do desespero com que sempre viveu.

A minha mãe ficou sempre menina. Tinha uma fixação na primeira infância que a sua sagacidade ocultou aos olhos desarmados do senso comum. Era uma menininha que enfrentou a vida como um gigante e depois se recolheu nas vestes de criança peregrina, sem rumo nem distância.

A minha mãe, que não era minha mãe, mas minha filha, era tudo para mim. Com ela discuti todos os dias da minha vida. Todos os dias! A ela permiti tudo! Só a ela. Todas as nossas desesperadas zangas acabavam sempre no abraço do poeta Ramos Rosa quando dizia:
“Não posso adiar o amor para outro século…
Ainda que o grito sufoque na garganta
Ainda que o ódio estale e crepite e arda…
Não posso adiar este abraço
Que é uma arma de dois gumes
Amor e ódio…
Não posso adiar o coração.”

A primeira vez que a minha mãe morreu tinha eu dez anos. Os vizinhos entraram pela casa dentro e não me viram chorar o luto abraçada ao cão vadio que meu irmão recolhera. – Temos que telefonar já ao marido. Ainda demora para vir da Venezuela. Ela não dura nem mais um dia.

Do outro lado da casa, não tive coragem de entrar para ver o anunciado corpo moribundo da minha mãe. “Mãe não morre nunca”, lembrei o poeta ao ouvido do meu cão vadio. “Mãe, nunca me deixes!”, supliquei ao céu, sem perceber a quem dirigia a prece.

Todos os anos a minha mãe morria duas ou três vezes, para ressuscitar de novo. Precisava de aferir a sua existência até aos limites. Oscilava entre a vida e a morte como quem compra caramelos para criança gulosa. Era exigente e ávida de dor a vida dela. Sempre vi a minha mãe como executora de tarefas desenhadas por um menino birrento ou por um deus anonimamente caprichoso.

- Deixem a minha Princesa em paz! - repeti mil vezes, desconhecendo, de novo, os destinatários das minhas súplicas.

A sete de Janeiro de 2001 ouvi chamar insistentemente por minha mãe. Vezes repetidas ela não ouvia o nosso desespero. Não tinha, pois, motivos para pensar que não respondia apenas porque os mortos não falam.
No quarto, meu irmão queria resposta: - Mãe, mãe, mãe...- Sai do quarto, por favor! A mãe morreu - disse-lhe baixinho, para que a morte me não ouvisse. A minha mãe sempre dizia que os mortos ouvem.- Não morreu nada - respondeu meu irmão, que não podia acreditar que as mães, mesmo as dolorosas, também morrem.

Telefonei para que a ambulância chegasse depressa e abracei-me ao corpo ainda quente de minha mãe.

- Tiveste um problema, mas vai ficar tudo bem. Não te preocupes! Haja o que houver, nós gostamos muito de ti, bem sabes. Tem calma, vais ficar bem. Claro que te perdoamos tudo. Tudo, Princesa.

O seu rosto iluminou-se. Parecia vivo de novo.. A minha mãe sorriu e eu aprendi, como o poeta, que “mãe não morre nunca”.

Sei desde então que a morte é apenas mais uma das portas da vida e que passar por ela pode ser a mais séria prova de amor, mesmo para vidas aparentemente desorganizadas e sem sentido.

Depois de morrer, a minha mãe aparece em alguns dos meus sonhos. Ora nadamos num lago transparente, ora a vejo construir escadas com argamassa translúcida nas traseiras da casa.

– Não te sabia artista, ó Princesa!– Tenho que vos ajudar. Tenho mesmo muito que fazer, minha filha.

Será que no céu há argamassa translúcida? Não sei, nem importa saber. Sei que está calma e feliz. Não me parece que os mortos nos sorriam em vão.
Claro que tenho saudades da sua voz. Que saudades! Que saudades também do seu cabelo grisalho que eu sempre enrolava e que, como os da amada de Henrique Leiria, eram “o meu acendedor de pirilampos”.

Entretanto, queria muito retribuir o sorriso da minha mãe com o refrão de Peninha, na voz de Caetano Veloso:
“Mas não tem revolta não.
Eu só quero que você se encontre.
Saudade até que é bom,
Melhor que caminhar vazio.
A esperança é um dom,
Que eu tenho em mim.
Eu tenho sim
Não tem desespero não,
Você me ensinou milhões de coisas
Tenho um sonho em minhas mãos
Amanhã será um novo dia,
Certamente eu vou ser mais feliz!”

Aprendi com a morte que o amor é intemporal, incondicional e não obedece às leis da sensatez e da lógica. Este permanece o maior legado que a mulher, menina, minha filha e minha mãe me deixou. Ela que tinha medo da noite e mãos elegantes de fada.

- Estarás sempre em mim, Princesa. Até um destes dias.
Fátima Marinho
Se quiserem ter a oportunidade de ouvir este texto podem fazê-lo aqui:

1 comentários:

Marta on 06:38 disse...

Olá Ana
Se eu estivesse mais pertinho!!!
Bom fim de semana
Beijinho

 

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